sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Uma história que li

Certa vez havia um artesão, que mal tinha dinheiro para o próprio sustento. Para piorar, ele precisava manter sua avó à custa de caros remédios conseguidos apenas na capital. Amaldiçoava dia após dia sua sina, mas seguia invariavelmente com seu destino, sendo bom e amável com as pessoas. Vendia esteiras e cestas a preços módicos, e muitas vezes apiedava-se e presenteava as pessoas (muitas das quais não podiam pagar).
E qual era o seu destino?

— Seu destino é ter sempre dívidas para seguir trabalhando. - disse certa vez uma cigana sem nenhum assombro ao ler-lhe a mão.

Uma semana havia se passado. O comboio mercante que levava suas mercadorias fora atacado por ladrões e os remédios que já haviam sido pagos foram roubados juntamente com outros produtos. O inverno se aproximava, e o artesão mal sabia o que fazer. Não tinha lenha, muito menos comida estocada.
Até que no dia seguinte, ao trançar os cordames de uma cesta, notou que haviam três cestas que ele não havia feito. Correu até a porta do quarto de sua avó para brigar com ela. Afinal estava doente. Ao que ela disse:

— Você não vai acreditar! Um brownie esta a nos ajudar! Agora não seja burro, dê-lhe leite e aveia todos os dias. E jamais, jamais diga obrigado, entendeu?

Por estranho que fosse o artesão resolveu não fazer perguntas. Iniciou o dia feliz por ter mais mercadorias para vender. Conseguiu um dinheiro extra e com ele comprou leite e aveia. A noite deixou o prato no canto da casa e foi deitar-se. No dia seguinte o prato estava vazio e acima da mesa haviam mais 3 cestas! Aquilo era simplesmente incrível. Em um mês, ele conseguira enfrentar o duro inverno, com lenha, comida e remédios para sua avó. Na primavera contratou seu primeiro ajudante e no outono, dispunha de três ajudantes e arranjara uma noiva de uma família de prósperos comerciantes.
No dia do seu casamento, parada a esmolar nas escadarias estava a cigana. Um lembrete desagradável de um destino nada acolhedor. Era próspero, estava com a mulher que amava, e tinha agora muitos amigos. Como poderia ser pobre novamente? Olhou uma vez mais para a cigana. Sua boca não emitia nenhum som, mas moviam-se dizendo: "en-di-vi-da-do".
Houve o casamento. A lua de mel, novas transações, a morte de sua querida avó. Ele precisou comprar outra casa para esconder a presença do brownie, que sacudia dia após dia as mãozinhas, ansioso por mais leite e aveia. É dito que se um humano comer qualquer comida das fadas ele nunca mais vai querer comer outra coisa na vida. O contrário também parecia verdade. E, ao colocar o prato de leite com aveia no canto da casa, o artesão viu pela primeira vez o brownie que sua avó dissera. Com pouco menos de um metro, roupas marrons e um gorro amarelado lá estava ele. Com alguns fios de palha ainda ao seu redor. O artesão ao vê-lo, lembrou-se de como era a bem pouco tempo atrás. Com olhos envergonhados esperando pelo pagamento, mal vestido e tímido. Não era da sua natureza ser ingrato, e pensou em recompensar o brownie, dando-lhe um prato extra. Mas em seguida raciocinou direito e pensou que isso poderia gerar ambição demesdida no pequeno.
Mais alguns meses se passaram e tudo transcorria bem. Sua esposa engravidara e o inverno chegara novamente. A dispensa estava cheia, a lareira crepitava, na sala reuniam-se os amigos. Oravam antes do jantar. Súbito, o artesão levantou-se da mesa, e foi até onde encontrava-se o brownie que ainda terminava a primeira cesta:

— Obrigado. Obrigado por tudo.

O brownie mostrou-lhe os dentes, fez uma careta e foi procurar outra casa em que pudesse ajudar. Como um passe de mágica, as coisas começaram a piorar. Ladrões tornaram a saquear as caravanas mercantes, sua esposa ficara gravemente doente após ter o seu filho, os remédios e o tratamento só podiam ser realizados na capital, todas suas economias eram sugadas pelos credores e seus amigos estavam sempre ocupados. Em dois anos, ele voltara a sua condição original. Lá estava a sua mulher doente, que lhe lembrava a avó, e seu filho, a quem tinha de dar leite e aveia sempre que podia pagar.
Desesperado, ele perambulou pela floresta próximo ao seu vilarejo até perder-se. Pois não se encontra uma fada sem estar perdido. E lá estava a rainha das fadas em pessoa, entretida com o vôo de uma libélula. Pareceu não notar o artesão, mas ele foi paciente e firme em seu pedido:

— Vossa alteza teria a bondade de me oferecer algo para passar o inverno? Tenho uma esposa doente e um filho pequeno que precisam de cuidados. - A rainha apenas sorriu.

Ao acordar no meio da floresta o artesão percebeu que havia adormecido, mas lembrava-se vividamente do sonho. Riu de sua boa sorte, e gritou dentro da floresta: "OBRIGADO!!". Voltava para casa, quando um cavaleiro envolto em uma capa escura passou a galope, e da própria montaria atirou-lhe uma flecha de cabo tão verde quanto um caule jovem. O artesão sangrava tanto que pensou que iria morrer. O cavaleiro armava outra flecha no cordame. Então o artesão notou algo incomum. Um dos cascos do cavalo era dourado. Só podia ser uma fada! Sem pensar duas vezes, ele tateou o ferimento, arrancou a flecha e disse:

— Obrigado!

Então o artesão levantou-se e cambaleou até o vilarejo. Tratou o ferimento e dormiu. Decidiu não buscar mais ajuda das fadas. No dia seguinte decidiu vender suas cestas e esteiras mais caro e não presentear mais ninguém.

* história presente no livro O Crânio e o Corvo de Leonel Caldela, Ed. Jambô. Modificada para fins pedagógicos (que no caso era contar a minha sobrinha.)

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